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pinturas do paraíso

Pinturas do Paraíso

João Pinharanda
Público
Dezembro de 2002

Os episódios que referem a vida humana à nostalgia do Paraíso deram tantos e tão variados frutos na pintura cristã como nos comentários escritos hebraicos. Proliferam na pintura ocidental ilustrações desse tempo sem história e desse espaço sem exterior que terá sido o do Jardim do Éden. Espaços sem tempo e sem acção são os das imagens (imagens de imagens) citadas por Domingos Rego. Não é novidade esta opção operativa de Domingos Rego no desenvolvimento formal das séries temáticas que tem explorado (a Seurat, Sete virtudes, Sete vícios, por exemplo). Também esta exposição se faz de citações (truncadas) que são, por sua vez, muitas delas, citações ou mesmo citações de citações. E todas conduzidas por regras iconográficas precisas, destinadas a eliminar os acidentes e desvios de um discurso que deveria ser canónico, universal, verdadeiro.

Domingos Rego apresenta-nos cenas e corpos sem identificação directa, personagens que, sob um vestuário contemporâneo ou indefinido historicamente, e em cenários de dominantes florais onde os planos se recortam com nitidez uns sobre os outros, ensaiam gestos capazes de cumprir os rituais coreográficos arquetípicos do encontro, da felicidade, da indecisão, da despedida ou da angústia.

De Fra Angelico a Van Eyck, de Ticiano a Watteau, de Gauguin a Matisse (para citar os mais reconhecíveis), diversos comportamentos humanos ilustram a nostalgia mítica dada através de recursos tão prosaicos (ou historicamente próximos) como os de um cromatismo kitsch, de uma memória fotográfica ou de uma simplificação gráfica que a Pop – e há, globalmente, uma memória de Marcial Raisse nestas imagens – também explorou.
Agora, a pintura de Domingos Rego parece ter atingido o ponto de viragem em que, expulsa do Paraíso que a citação lhe tem garantido, se deve preparar para enfrentar sem protecção o tempo, o espaço e a acção da nossa contemporaneidade.

crítica
 
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